Esse caso do refugiado Cesare Battisti acabou me incomodando um pouco. Tenho visto muita gente se manifestando contrária à decisão do ministro da justiça Tarso Genro, de atribuir ao suposto criminoso italiano status de refugiado político.
Não penso que se trate de um assunto a ser discutido entre esquerdistas e direitistas. Trata-se de um tema que envolve soberania, quer dizer, o necessário e mútuo reconhecimento de dois estados serem soberanos e, por isso mesmo, capazes de manter uma discussão como essa no contexto do direito internacional.
Por isso mesmo, antes de me deixar envolver pelos argumentos apelativos que, ao final, mais parecem reproduzir um ritual de linchamento do que propriamente um julgamento imparcial, preferi investigar. Afinal, quem são essas pessoas que se arvoram ao direito de manifestarem suas opiniões como se juristas fossem, embora na esmagadora maioria realmente não o sejam?
Procurei por fontes de fatos, não de opiniões. Busquei conhecer a história, sua cronologia, seus personagens. Encontrei o ótimo
texto de Valerio Evangelisti, publicado em 16 de setembro de 2005 e postado em 20 de março de 2008 no CMI Brasil - Centro de Mídia Independente, que traz muita luz ao assunto. O autor desfila uma sequência de perguntas com respostas que, à medida que são lidas, expõem como a grande imprensa se mostrou parcial e irresponsável a respeito.
Tomo a liberdade de reproduzir algumas dessas perguntas/respostas, a título de contribuir para a justa, urgente e necessária disseminação de informação imparcial, que permita às pessoas refletirem melhor sobre suas posições e convicções:
"Por que Cesare Battisti foi preso em 1979?
Ele foi preso no âmbito das prisões que abateram o Coletivo Autônomo da Barona (um bairro de Milão), depois do assassinato, em 16 de fevereiro de 1979, do joalheiro Luigi Pietro Torregiani.
Por que o joalheiro Torregiani foi assassinado?
Porque em 22 de janeiro de 1979, com um conhecido também armado, ele matou Orazio Daidone: um dos assaltantes do restaurante Il Transatlantico, onde Torregiani jantava com outras pessoas. Um cliente, Vincenzo Consoli, morreu no tiroteio e um outro foi ferido. Quem matou Torregiani pretendia acertar aqueles que, na época, 'faziam justiça com as próprias mãos'.
Cesare Battisti participou do assalto ao Il Transatlantico?
Não. Ninguém nunca afirmou isso. Foi um caso de delinquência comum.
Cesare Battisti participou do assassinato de Torregiani?
Não. Isso também – apesar de ter sido afirmado inicialmente – foi totalmente excluído. Além disso, também foi impossível envolvê-lo na morte do açougueiro Lino Sabbadin, que aconteceu na província de Udine no mesmo dia 16 de fevereiro de 1979, quase na mesma hora.
Se deixou entender que Cesare Battisti feriu um dos filhos adotivos de Torregiani, Alberto, que ficou paraplégico?
Alberto Torregiani foi ferido por uma bala disparada pelo seu próprio pai durante o tiroteio.
Por que então Cesare Battisti foi relacionado com o homicídio de Torregiani?
Porque, como ele mesmo reconheceu, fez parte do grupo que reivindicou o atentado, os Proletários Armados pelo Comunismo. O mesmo grupo que reinvidicou o atentado contra Sabbadin."
E assim as perguntas vão sendo feitas e respondidas, ao longo desse
artigo cuja leitura recomendo aos apressadinhos de plantão, particularmente aos profissionais do jornalismo, para se imbuírem de um mínimo de responsabilidade quando sabem que são, sim, formadores de opinião.
Para concluir, vale citar um certo deputado italiano, o fascista Ettore Pirovano, a propósito desse imbroglio: "Não me parece que o Brasil seja conhecido por seus juristas, mas sim por suas dançarinas". Ao que parece, os que defendem no Brasil a extradição de Battisti ganharam um aliado de peso (a direita na Europa tem mais a ver com nazistas e fascistas do que com republicanos).