Primeira colônia a se tornar independente das metrópoles européias, em 1º de janeiro de 1804, o Haiti é atualmente considerado o país mais pobre das Américas. Esse status de pobreza, entretanto, depreende-se apenas do PIB desse país caribenho, sem que se estabeleça com clareza em quais condições sobrevive uma esmagadora maioria de absolutamente pobres da população. Claro está que, para a "esmagada" minoria dos absolutamente ricos, isso pouco importa. O fato é que se fez necessária uma intervenção de forças militares da ONU para conter uma violência já completamente fora de controle, à custa de muitas vidas humanas e muito dinheiro.

O Haiti é um país de contrastes. Tem praias paradisíacas e uma vocação natural para o turismo. Tem também favelas, fome, miséria, insalubridade, narcotráfico, violência, insegurança, injustiça, balas perdidas, corrupção, controle nenhum de natalidade, política nenhuma de educação ou de saúde pública. O problema é descobrir o que fazer com as centenas de milhares de pessoas famintas e desempregadas socialmente excluídas. São mães desesperadas, pais humilhados e filhos revoltados.
Cité Soleil é o nome de um bairro uma favela localizada na capital do país, Porto Príncipe, onde se deflagrou uma guerra de 'absolutamente pobres' contra 'absolutamente pobres'. Presentes naquela luta, lá estavam as armas (que custam dinheiro) e o tráfico de drogas que as financia – este, perfeitamente integrado a ambientes de miséria.
Não muito afastados da zona conflagrada, outros ingredientes dessa receita explosiva podem ser encontrados dentro do privilegiado grupo dos absolutamente ricos – elite que aconchega em seu meio políticos corruptos, o outro câncer social.
Mas como se chegou a tal estado de calamidade? Em parte, a história explica. O Haiti, colonizado pelos franceses, teve sua independência conquistada pelos escravos em 1804. Toda uma ordem antes existente foi desestruturada, tendo sua economia agro-exportadora de então sido substituída por uma economia agrícola de subsistência. Uma nova identidade nacional foi estimulada por práticas culturais de origem africana. E a posse de propriedades foi restringida para estrangeiros.
Uma segunda fase na história do país, de 1820 a 1915, caracterizou-se pela volta da economia à exportação, principalmente de café. Os ideais de uma nação socialmente justa do movimento pela independência foram esquecidos, enquanto comandantes militares se fortaleciam políticamente, até finalmente se apossarem do poder, governando o país à sombra do autoritarismo militar.

Surgiram, a partir de então, as primeiras segregações entre negros e mulatos, civis e militares. A grande maioria da população tornou-se refém de uma pequena oligarquia. A sequência de tirania culminou com a ditadura da família Duvalier, iniciada nos anos 1950, primeiro com François Duvalier, o Papa Doc, até 1971, sucedido pelo filho Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc. Este dirigiu o país até 1986, quando deixou o país, pressionado por diversos setores da sociedade em reação ao autoritarismo e à repressão que marcaram seu governo.

O ano de 1990 marcou as primeiras eleições democráticas no país, com a vitória de Jean-Bertrand Aristide, um ex-padre simpatizante da teologia da libertação. Mas a recém-nascida democracia foi interrompida em setembro do ano seguinte por um golpe militar liderado pelo General Raul Cedras. Três anos depois, no entanto, Aristide era reconduzido ao poder sob a tutela dos Estados Unidos que, apoiados pela OEA e junto com tropas de vários países da região, invadiram o país para restaurar o governo eleito e a estabilidade política e econômica. Essa nova intervenção estadunidense se fez necessária pelo grande impacto regional causado pela migração de milhares de haitianos que tentavam fugir do violento regime, inclusive em direção à costa americana.

Mas o tráfico de drogas foi, com certeza, a real motivação para a ação, uma vez que a ditadura corrupta de Cedras facilitava as ações ilegais no Haiti, país a meio caminho entre a Colômbia e os Estados Unidos. Essa presença militar norte-americana acabou se prolongando, até que as Nações Unidas finalmente vieram assumir a responsabilidade pelo país, ainda com um general americano no comando.
Terminado seu mandato, Aristide convocou nova eleição presidencial sob assistência dos Estados Unidos e da ONU. Realizado em 1996, o pleito foi considerado irregular pelos observadores internacionais. Mesmo assim, o democrata Clinton, então presidente dos Estados Unidos, considerou o resultado da eleição um grande avanço para a consolidação da democracia no país.
Diversos fatores que se seguiram acabaram por contribuir para o colapso da economia haitiana. Os democratas do governo Clinton foram sucedidos pelos republicanos do nada saudoso Bush. Por sua vez, Aristide foi sucedido pelo eleito René Prevél. Este deu continuidade às políticas de Aristide que, por sua vez, voltou ao poder, desta vez sob forte suspeita de fraude eleitoral. Com tanta instabilidade, o país não atraía mais nenhum interesse do capital estrangeiro.
Forças paramilitares formadas principalmente por ex-partidários de Aristide e soldados do exército haitiano – incluindo-se os temidos "tontons macoutes", odientos covardes criados pela dinastia Doc – dissolvido em 1995, muitos dos quais encontravam-se refugiados na República Dominicana, se somaram a opositores do governo, tentando pressionar a comunidade internacional. Mas a Caribbean Community (CARICOM), a OEA e a ONU reafirmaram a legitimidade e o apoio ao cumprimento do mandato de Aristide.

As forças rebeldes finalmente alcançaram Porto Príncipe, levando Aristide a fugir para a África. Sua fuga e posterior renúncia foi claramente conduzida pelo governo dos EUA através do General Collin Powell. Imediatamente em seguida, uma força multinacional chegou ao país com o objetivo de evitar a guerra civil e restaurar a democracia. Essas tropas passaram a ter comando brasileiro, que somou ao seu contingente soldados da Argentina, Chile, Nepal, Sri Lanka e Uruguai, em substituição aos estadunidenses, canadenses e franceses.
Este relato nos traz ao momento atualmente vivido pelo Haiti. Atravessamos um período marcado por uma crise econômica mundial de proporções ainda desconhecidas, dificultando ainda mais o esforço de reconstrução. Ainda não se sabe até quando os capacetes azuis da ONU sob comando brasileiro serão mantidos no país. Os objetivos iniciais aparentemente estão sendo alcançados, com o desarmamento de milícias e distribuição de água potável e alimentos a pessoas que sequer compreendiam o que esse gesto significava.
O Haiti atingiu extremos que jogaram diante de nossos olhos as piores práticas de corrupção e de crimes contra a humanidade, com a conivência de um imobilismo cínico e injustificado de toda a comunidade internacional. Tais práticas ocorrem por toda a parte do mundo, ainda que em menor escala mas, de forma alguma, menos condenáveis. Aqui no Brasil, não temos do que nos vangloriar: esbanjamos corrupção a céu aberto enquanto favelas são tomadas pelo narcotráfico, dormimos ao som de tiros e acordamos lendo notícias de pessoas inocentes atingidas mortalmente por balas perdidas.
Mas... epa! Eu disse "pessoas inocentes"? Por favor, me desculpem. Neste mundo não há inocentes. O que temos aqui são culpados e coniventes. Juízes habituados a venderem sentenças não tem condições morais de, a si próprios, atribuirem imparcialidade quando, mesmo diante de toneladas de provas contra banqueiros e políticos, se contentam em condenar apenas miseráveis que roubam para ter o que comer.
A África fica ao lado e o Haiti, logo ali.
















